Para nós estrangeiros o gosto pela capoeira não pode vir da sua imagem como símbolo da brasilianidade ou da africanidade dentro da brasilianidade. A história social europeia tem produzido o boxe e a savate ; nas Antilhas o Ladja (ou Danmié) apresenta tão bem a
herança Afro que nem os velhos "majors" remanescentes da arte, nem os revivalistas, atraem muitos adeptos. É que em muitos municípios, mesmo com esmagadora maioria Afro-antilhesa, a prática, como todas em que o tambor participa, é proibida, por ser
indigna da grande civilização francesa, a qual domina absolutamente o terreno. Esta cultura é a que tem formalizado, com a obra do Barão Pierre de Courbertin, a reativação dos Jogos Olímpicos e outras medidas de normalização dos esportes. Para isto, se valeu da tradição aristocrata do duelo, fonte do espírito de sujeição à regras, e de jogos populares pouco regrados.
Ao estudar estes jogos do passado, constatamos que se desenvolveram a partir das tenções que os praticantes sofriam no seu cotidiano.
Especificamente, as formas antigas, na França ou na Inglaterra, das lutas (em suas modalidades populares) como dos jogos de bola, tinham muitas vezes um conteúdo social, que podia ocasionalmente ser considerado danoso ou subversivo. A proibição da capoeira na fase de modernização do Brasil não é um caso único. A regulação os jogos foi um esforço de controle social, exercido ou pelos especialistas tradicionais da questão, padres e pedagogos, ou pelos industrialistas. Integrados hoje na economia do espetáculo, o esporte é considerado pelos seus promotores como exercício higiénico e educativo. Higiénico, combate os efeitos da divisão do trabalho, em qual os indivíduos, particularmente os operários do sistema de produção de massa e os empregados de escritórios, vêem o seu corpo deteriorado pelas tarefas repetitivas ou o sedentarismo; educativo, pratica a concorrência para que o melhor ganhe, mostra um retorno
graduado pelos investimentos pessoais; higiénico, dá espaço de
esvaziamento para tensões psicológicas dirigida por ele contra um
adversário ritual; educativo, coloca a ênfase sobre o respeito das
regras, aprendizagem da legalidade; higiénico, põe em contato setores
diversos da sociedade; educativo, ensina a cada um o seu lugar,
integrando os dominados através de esportes coletivos onde os postos
de comando são atribuídos aos integrantes de classe alta; higiénico,
tira a mocidade da bebida e das demais drogas; educativo, ensina a
dignidade na derrota e a submissão às decisões do árbitro.
No decorrer do século, a sociedade tem evoluido para uma
concorrência generalizada entre estruturas equivalentes. Sem falar do
mercado, onde vemos um sem-número de sabões, de biscoitos, de
carros mais ou menos similares, as religião fornecem um exemplo :
quantas denominações cristãs? Porque foi achado necessário separar-
se tanto, quando a diferença teórica é tão pouca? Os esportes,
similarmente, evoluiram para acabar todos, nos seus princípios e na
sua estruturação, modalidades diversas da mesma metáfora da
sociedade industrial.
Ultimamente, o desenvolvimento tem chegado a um paradoxo. Não
cabe aqui tentar uma explicação, mas o fato é que temos um
desemprego considerável. Neste contexto, o princípio de competição
para seleção dos mais aptos não permite mais a conservação de uma
posição à altura da dos pais para todos os rebentos. A família, de que
se falava que estava em crise, voltou a atuar para ajudar fornecendo
patrocínio. O dinheiro comprou longos espaços de adaptação
profissionais não pagos para que os filhos se tornassem mais
atraentes, independente das suas capacidades, para os empregadores.
O esporte, portanto, apresenta agora na vista comum uma projeção
falsificada do funcionamento social. Como espetáculo, vira
celebração de uma cultura em crise ou até em decadência, como
opção pessoal, ilude o praticante. Em resposta, apareceram e foram
oficializados uma série de "esportes" com ênfase diferente, onde o
aspeto agonístico está quase ausente. O seu princípio comum é o do
concurso acrobático. O indivíduo solitário consegue fazer algo
inédito. Um júri atribui o prémio. A arbitrariedade da decisão é
compensada pelo seu lado político (coletivo). No entanto, os
folguedos populares que não foram integrados pelo espírito
esportivos continuam (ou não) existir discretamente. Pois nem todos
entraram no molde. E cada povo imigrante trouxe as suas
modalidades próprias, que nem sempre se prestavam à esportivismo.
Como o desemprego cria condições aventurosas em todos os setores,
o número dos que procuram o sucesso em novas direções vai
aumentando: decisão arriscada, mas não mais do que a participação à
concorrência maior pelos postos já definidos.
A capoeira é um destes rumos, e certamente já vemos dois jeitos de
integra-la ao quadro, de acordo com diversas opções pessoais. Como
modalidade de luta, a única chance dela é o seu exotismo, que faz ela
adotada por praticantes de um determinado esnobismo, e por galos
que prefirem ser o dono de um pequeno terreno do que se expor ao
vasto mundo. Como jogo acrobático, e possivelmente em conjunto
com efeito de exotismo e de moda, atrai aqueles, já aludidos, que
perderam os valores de competição para seleção dos melhores e se
entregam à decisões coletivas (metáfora da política) para a
valorização do seu esforço. Estes muitas vezes temem o contato e
confronto com um outro e tornam essencial e permanente a regra de
parceria que a capoeira tem no seu treino.
Ainda existe outro caso -- o meu, por sinal. Gosto da capoeira
porque a capoeira, vadiação, brinquedo, baderna, jogo, NÃO É um
esporte, dos que são uma simples projeção metafórica da sociedade
industrial : regrados, sem acesso dos indivíduos à definição das
regras; burocráticos, policiados, insensíveis às pequenas variações
locais.
A perspetiva de ver regras impostas à capoeira olho com muita
suspição. A capoeira não tem regras? Acredito que sim, tem; mas,
isso é importante, a capoeira não tem regulamento, não tem regras
EXPLCITAS. A diferença da expressão do que é o certo através de
símbolos e através de explicitação num discurso é capital.
Pretendo elaborar alguma coisa no assunto, mas a não ser a falta de
tempo para um escrito do qual quero que obedece às regras formais
da cientificidade e mantenha um rigor no seu raciocínio, existe uma
contradição no meu propósito. É preciso alguma meditação antes de
explicitar a necessidade de não explicitar regras.
Em defesa da ausência de regras, já posso destacar que isso permite
adaptação às mutações do meio social. Certamente, a capoeira já
mudou, e muito do Brasil colonial para cá. Segundo, o juridismo de
normas, de regras escritas é integral da cultura europeia -- para ser
mais preciso, da cultura dos mestres, dominantes europeios. Não é só
no Brasil que os dominados tem tentado burlar regras para quais não
foram consultados. Não sou anarquista. Não dou valor geral à
eliminação de regras. Não julgo o resultado do espalhamento
(violento) da cultura dita ocidental. Mas o fato atual é que o
crescimento da civilização industrial, da divisão do trabalho, da
especialização inclusive das tarefas de dominação, da burocratização,
fazem que não existe mais lugar de decisão, onde se determinariam
regras. Os moradores da aldeia planetar são dominados por regras
que sempre, qualquer seja o nível onde estão endereçados os
protestos, são determinadas um além. Existe, em consequência, uma
crise da aceitação dos regulamentos.
Ponto de vista, isto, que pode muito bem não ser dos capoeiristas,
brasileiros socialmente dominados, suburbanos, biqueiros, donos de
ofícios desvalorizados, em ânsia de merecido reconhecimento social,
que procuram-lo através de organização oficialmente padronizada.
Aceitam estes constrangimentos mais do que construem-los -- na vida
tem que ter jogo de cintura.
Mas não é o caso, se não me engano, dos organizadores do grupo
Palmares da Paraíba de quem recebemos a comunicação sobre a ética,
nem dos autores de textos sobre a ética que encontramos no Internet.
Se trata de pessoas já bem integradas, já que o acesso ao Web requer
alguns recursos financiais e sobretudo uma determinada familiaridade
com a lógica do escrito e dos computadores.
O que vemos na rede é expressão de un desejo de colocação de regras
éticas oriundas do estado (ética cívica) ou da sociedade civil (éticas
esportivas, religiosas, liberais, étnico-culturais) para a capoeira. É
uma ação similar à do barão de Courbertin, que pode muito bem se
chamar de violência simbólica. Simbólica, porque exercida sobre os
símbolos, isto é, são as ferramentas mentais que permitem às pessoas
de constituir uma visão do mundo própria. Violência, porque
aproveitam da dominação do verbo na sociedade e do prestígio da
fala bem construída para apagar os comportamentos que constituem,
de fato, expressão de outra construção simbólica do mundo. Sei que
muitas pessoas, particuliarmente as "educadas", ficaram, devido à
educação especializada no domínio do discurso, insensíveis aos
símbolos não verbais. Não digo que isto não seja certo. O discurso é
mesmo a chave para todos os caminhos do sucesso social. Mas não é o
único meio de constituir símbolos. Todo mundo se vale do seu corpo
para soltar mensagens, e os letrados, que em consequência da sua
especialização não entendem estes sinais antes de verbaliza-los,
precisam de reconhecer com alguma humildade que a reação direita
ao fluxo de símbolos corporais é mais eficiente no relacionamento
social. É mais rápida, mais precisa, e reage às variações do
intercâmbio. Para estes, como para bom número de europeios, o
treino na capoeira é verdadeira reeducação. Mas para aprender, é
preciso de um professor. Não pode ser o aluno que dita as regras --
um fenómeno, digo passando, que encontramos muito por aí, o do
aluno que acredita que aquilo que aprendeu na vida é válido sempre,
portanto válido na capoeira, portanto que já sabe tudo e só precisa de
algumas técnicas. No caso do textos sobre a ética, sem tirar nada da
capoeira que os autores já tem, assistimos à manobra do mesmo
cunho. Sendo que existem regras éticas; sendo que essas regras são
universais; sendo que a capoeira é parte do universo; declaram os
autores: as regras éticas devem se aplicar à capoeira. Mas não é nada
disso. A capoeira não precisa de ética. A capoeira tem ética. A
capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes,
um ensino ético realizado através de situações simbólicas.
Por enquanto, não quero explicitar mais. Isto já é demais para os
praticantes não letrados, que são os primeiros usuários deste ensino
da capoeira, que nem por isso deixa de ser útil para os outros, mais
formados e deformados para e pelo discurso.
Se, porém, subsidisse uma dúvida sobre o fato que a capoeira tem
ética em si, indicarei, simplesmente, que se a ética é prescrição de
uma atitude certa frente à vida social, então, a atitude capoeira é
adaptada para quem não pode ou não quer competir por um dos
poderes centrais da sociedade : uma PARTICIPAÇÃO
DESCONFIADA.
Ponho este exemplo de transcrição discursiva par convencer aqueles
que não entendem assunto qualquer se não é traduzido em discurso,
para incentivar eles a comecer a aprender.
Post-Scriptum
A insistência em colocar acima da capoeira regras de comportamento
é ainda uma pressão para o embranquecimento. Relendo Edison
Carneiro "Candomblés da Bahia" encontro a citação seguinte:
O candomblé não é um conjunto de regras morais. Seligman diz,
para todo o continente africano : "...a religião... não é, com
efeito, um código moral imposto e controlado do exterior ...mas ...uma
explicação dos fatos da existência e um comentário sobre a ação
controladora da vida, e as crenças e práticas que incorpora são
simplesmente parte da contextura da existência cotidiana"
(Races of Africa, p. 11).
(Notas à margem, 8a ed. 1991, p.128). A visão europeia está
profundamente marcada pelo manicheismo através da integração por
Santo Augustino. Lembro do estranhamento de colegas franceses em
encontrar a frase "mandingueiro cheio de malevolencia" usada em
louvor de Mestre Bimba no disco de Acordeão. É que nas crenças
francesas atuais, a figura do santo guerreiro é de todo apagada. A
bravura não é mais considerada virtude na cidade moderna.
Entretanto, os pais fundadores das Repúblicas, tanto americana como
francesa, consideravam-na como única garantia da liberdade.
Esta virtude apagada da vivência dos cidadões, podemos revivificar
através da aprendizagem do sistema de valores afro-brasileiros : um
sistema provavelmente híbrido, mais adaptado ao mundo atual do que
o africano, mais que retem, esperamos, ingredientes para nossa
construção pessoal.
Ao meu ver, aí está o debate. Pode-ser que os poderes chamados
públicos (mais que são, em realidade, carateristicamente
burocráticos) continuassem não gostar de tal "esporte" que torna
alguns elementos do povo mais difícis de controlar. Poderia ser que a
capoeira tradicional seja criadora de problemas pelos próprios
praticantes, que seja uma resposta mítica e mistificadora aos desafios
da vida aqui ; em justo retorno pela massa de "ideias fora do lugar"
transferidas da Europa pelo Brasil, uma prática "fora do lugar".
Também pode ser elemento de cura pelas doenças do primeiro
mundo. Falou o poeta René Char :
certains laissent des remèdes, d'autres des poisons
difficile de savoir -- il faut goûter
(uns deixam remédios, outros, venenos... difícil saber -- há de
provar)
ou em termos de ética da capoeira : tem que ter jogo de cintura.