Manuel Raimundo Querino, que foi o primeiro historiador negro no Brasil (1854-1923),
escreveu em A Bahia de Outrora (1916) as seguintes linhas :
O Angola era, em geral, pernostico, excessivamente loquaz, de gestos amaneirados,
typo completo e acabado do capadocio e o introductor da capoeiragem, na Bahia.
A capoeira era uma especie de jogo athletico, que consistia em rapidos movimentos
de mãos, pés e cabeça, em certas desarticulações do tronco, e, particularmente, na
agilidade de saltos para a frente, para traz, para os lados, tudo em defesa ou ataque, corpo
a corpo. O capoeira era um individuo desconfiado e sempre prevenido. Andando nos
passeios, ao approximar-se de uma esquina tomava immediatamente a direcção do meio
da rua; em viagem, si uma pessoa fazia o gesto de cortejar a alguem, o capoeira de subito,
saltava longe com a intenção de desviar uma aggressão, embora imaginaria.
O domingo de Ramos fôra sempre o dia escolhido para as escaramuças dos capoeiras. O bairro
mais forte fôra o da Sé; o campo da lucta era o Terreiro de Jesus. Esse bairro nunca fora
atacado de surpresa, porque os seus dirigentes, sempre prevenidos fechavam as
embocaduras, por meio de combatentes, e um tulheiro de pedras e garrafas quebradas,
em forma de trincheiras, guarneciam os principaes pontos de ataque, como fossem: ladeira
de S. Francisco, S. Miguel, e Portas do Carmo, na embocadura do Terreiro. Levava cada
bairro uma bandeira nacional, e ao avistarem-se davam vivas vas a sua parcialidade.
Terminada a lucta, o vencedor conduzia a bandeira do vencido.
Nos exercicios de capoeiragem, o manejo dos pés muito contribuia para desconcertar o
adversario, com uma rasteira, desenvolvida a tempo.
No acto da lucta, toda a attenção se concentrava no olhar dos contendores; pois que, um
golpe imprevisto, um avanço em falso, uma retirada negativa poderiam dar ganho de
causa a um dos dois. Os mais habeis capoeiras, logo aos primeiros assaltos, conheciam a
força do adversario; e, neste caso, já era uma vantagem, relativamente ao modo de agir.
Por muito tempo, os exercicios de capoeiragem interessaram não só aos individuos da
camada popular, mas tambem às pessoas de representação social; estas, porém, como um
meio de desenvolvimento e de educação physica, como hoje é o foot-ball e outros géneros
de sport. Os povos cultos têm o seu jogo de capoeira, mas sob outros nomes: assim, o
português joga o pau; o francez, a savata; o inglez, o soco; o japonez, o jiu-jitsu, a imitação
dos jogos olympicos dos gregos e da lucta dos romanos.
Havia os capoeiras de profissão, conhecidos logo á primeira vista, pela attitude singular
do corpo, pelo andar arrevesado, pelas calças de bocca larga, na pantalona, cobrindo toda
parte anterior do pé, pela argolinha de oiro na orelha, como insignia de força e valentia,
e o nunca esquecido chapéu á banda.
Os amadores, porém, não usavam signaes caracteristicos, mas, exhibiam se galhardamente,
nas occasiões precisas. No domingo de Ramos e sabbado de Alleluia entregavam-se a
desafios e luctas, nos bairros então preferidos, como fossem: o da Sé, S. Pedro, Santo Ignacio
ou da Saúde.
Previamente, parlamentavam, por intermedio de gazetas manuscriptas. Duas
circumstancias actuavam, poderosamente, no espirito da mocidade, para se entregar aos
exercicios de capoeiragem: a leitura da Historia de Carlos Magno ou os doze pares de
França, e, bem assim, as narrações guerreiras da vida de Napoleão Bonaparte. Era a mania
de ser valente como, modernamente, a de cavador. Nesses exercicios, que a gyria do
capadocio chamava de -- brinquedo, dansavam a capoeira sob o rythmo do berimbau,
instrumento composto de um arco de madeira flexivel, preso ás extremidades por uma
corda de arame fino, estando ligada a corda numa cabacinha ou moeda de cobre.
O tocador de berimbau segurava a o instrumento com a mão esquerda. e na direita trazia
pequena cesta contendo calhaus, chamada -- gongo, além de um cipó fino, com o qual
feria a corda, produzindo o som.
Depois entoava essa cantiga:
Tiririca e faca de cotá,
Jacatimba moleque de sinha,
Subiava ni fundo di quintá.
CORO
Aloanguê caba de matá
Aloanguê.
Marimbondo dono de mato,
Carrapato dono de fôia,
Todo mundo bêbê caxaxa,
Negro Angola só leva a fama.
CORO
Aloanguê, Som Bento ta me chamando,
Aloanguê.
* * *
Cachimbêro nã fica sem fogo,
Sinhá veia nã é mai do mundo,
Doença que tem nã é boa
Nã e cousa de fazê zombaria.
CORO
Aloanguê, Som Bento tá me chamando,
Aloanguê.
* * *
Pade Inganga fechou corôa
Hade morê;
Parente não me caba de matá
CORO
Aloanguê, Som Bento tá me chamando,
Alonnguê.
* * *
Camarada, toma sintido,
Capoêra tem fundamento.
CORO
Aloanguê, Som Bento tá me chamando,
Aloanguê caba de mata,
Aloangue.
* * *
Por occasião da guerra com o Paraguay o governo da então Provincia fez seguir bom
numero de capoeiras; muitos por livre e espontanea vontade, e muitissimos
voluntariamente constrangidos. E não foram improficuos os esforços desses
defensores da Patria, no theatro da lucta, principalmente nos assaltos á baioneta.
E a prova desse aproveitamento está no brilhante feito d'armas praticado pelas
companhias de Zuavos Bahianos, no assalto ao forte de Curuzú, debandando os
paraguayos, onde galhardamente fincaram o pavilhão nacional.
Cezario Alvaro da Costa, rapaz bem procedido e caprichoso, não era um profissional,
mas, amador competente. Marchou daqui para o sul, como cabo d'esquadra do 7°.
batalhão de caçadores do exercito. Nos primeiros encontros com o inimigo, começou
por distinguir-se, a ponto de ser apreciado por seus superiores, e, fora subindo
gradualmente, até o posto de alferes. Certo dia, depois de um combate Cezario da Costa
encontrou dois paraguayos, e enfrentou-os corajosamente. Depois de acirrados recontros
e, auxiliado pelo que conhecia de esgrima da baioneta, conseguiu supplantar os
adversarios. Este acto de bravura, unido a outros anteriormente praticados, levaram-no
á promoção no posto immediato, e a ser condecorado com o habito da Ordem do
Cruzeiro, pelo marechal Conde d'Eu. Esse official falleceu em Bage, Rio Grande do Sul,
no posto de capitão.
Antonio Francisco de Mello, natural de Pernambuco, seguiu para a campanha, no posto
de primeiro cadete sargento ajudante do 9°. batalhão de caçadores do exercito. Não se
limitava a simples amador de capoeira, possuia tendencia pronunciada para um
destemido profissional, o que, decididamente, lhe prejudicou, demorando a promoção
apesar de possuir certa importancia pessoal, tendo o curso de preparatorios. Não lhe eram
favoraveis as opiniões escriptas pelos commandantes de corpos, nas relaçoes semestraes,
livro onde se apurava o comportamento dos officiaes inferiores. O cadete Mello usava
calça fôfa, bonet ou chapeo a banda, pimpão, e não dispensava o geito arrevesado dos
entendidos em mandinga. Francisco de Mello fazia parte do contingente a bordo da
corveta Parnahyba, na memoravel batalha do Riachuelo, e a respeito assim se
pronunciou o commandante do navio:
"O contingente do 9°. batalhão portou-se como era de esperar de soldados brasileiros.
Enthusiasmo no acto da abordagem, valor e esforço denodado na lucta travada braco
a braço com o inimigo, excedem ao melhor elogio".
Depois dessa acção, o cadete Mello fôra promovido a alferes e condecorado. Esteve na
campanha até o anno de 1869, quando voltou ao Brasil, ficando addido ao 5°. batalhão, no
Rio de Janeiro. No dia que estava de serviço, costumava dizer:
-- "Camaradas! sabem quem esta de estado hoje? Quem esta debaixo dos pés de S. Miguel."
Passava a noite a velar, fazendo revista incerta a toda hora. Quem faltava a revista, no dia
immediato corria marche-marche por espaço de duas horas. Era o unico official que podia
conter a soldadesea desenfreiada, nos dias de pagamento de soldo. Promovido a capitão,
falleceu num dos Estados do Norte. Trago esses dois exemplos para justificar que a capoeira
tem a sua utilidade em determinadas occasiões.
No Rio de Janeiro, o capoeira constituia um elemento perigoso; tornando-se necessario
que o governo, pela portaria de 31 de Outubro de 1821, estabelecesse castigos corporaes e
providencias outras, relativas ao caso.